Esta é a época dos pássaros de arribação — como aqueles que fazem grande alarido nas árvores do jardim ao cair do dia — e, por isso mesmo, bem podia a Câmara ter esperado antes de começar a cortar radicalmente essas árvores. Os magníficos eucaliptos do vale florescem e alimentam as abelhas. E à noite as cigarras fazem ressoar no vale o seu poderoso ruído branco. | ∫ | This is the season of birds of passage - like those who make a fuss in the garden's trees by dusk - and, therefore, the municipal services might well have waited before starting to dramatically cut the all the leafed branches. The magnificent eucalyptus of the valley blossom and feed the bees. And at night the cicadas are reverberating in the valley its powerful white noise. |
Uma outra história de arribação: por esta altura do ano, vinda da Índia, "arribou" a Sesimbra a nau
São Valentim. Dirigia-se a Lisboa mas estes barcos, muitas vezes, vinham bastante combalidos da viagem, a meter água e a necessitar de reparações urgentes. Na mesma altura patrulhavam a costa ocidental da Ibéria duas esquadras inglesas, dirigidas pelo cavaleiro da rainha Elisabeth "Sir" Richard Leveson e por William Monson. Cruzaram-se com uma frota espanhola que rumava à Flandres mas, estando em minoria, deram a volta ao largo, apesar de estarem em guerra com a Espanha — e com Portugal também, pois o rei, Filipe II, era o mesmo. Rumaram então a Sesimbra que atacaram a tiro de canhão, destruindo o Forte de
São Valentim, que existia a meio da praia — e que também era conhecido como o Forte da Marinha, daí o nome do actual largo (terá o tradicional nome de
Largo dos Valentes algo a ver com isto?). Levaram a nau, carregada de ouro, para Inglaterra, onde chegaram a 25 de Outubro.
Os Ingleses fantasiaram bastante este saque: há relatos que dizem que havia 10 mil soldados na praia, que o galeão foi defendido por oito galés, e ainda que o vento soprava de terra para o mar: uma missão quase impossível, difícil de acreditar — e o que faria tanto soldado na Ribeira? Para sua glória, mandaram pintar um quadro fantasista a Hendrick Vroom, no qual Sesimbra aparece na falésia — tal como os prédios dos anos 60 — e a ruir sob o bombardeamento.
Sesimbra está empoleirada a meio do mais alto dos dois rochedos à direita. Devem ter confundido com os morros do Macorrilho e do Alcatráz...
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Anúncio de 1937 | ∫ | Newspaper ad of 1937. |
O velho "Monte dos Vendavais" (morro do Macorrilho) tem despertado a imaginação de muita gente, como local apropriado para lá construir qualquer coisa: até o arquitecto Conceição Silva projectou, salvo erro, uma "casa de chá". E agora, a propósito da obra de requalificação da marginal poente, volta a colocar-se essa hipótese. No entanto, como já funcionou ali um estaleiro de construção naval tradicional (como se pode ver
nesta foto) talvez seja um bom local para evocar essa actividade, com fins culturais e também turísticos.
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