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sexta-feira, janeiro 27, 2006

Tenerife - Cabo Verde


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A página da N. S. da Aparecida já actualizou os Diários de Bordo relativos ao percurso entre Tenerife e Cabo Verde, percorrido entre os dias 11 e 20 de Janeiro, cuja leitura integral vale bem a pena. Apresentamos aqui alguns resumos, destacando as partes que fazem mais directamente referência ao comportamento da barca.

6 a 10 de Janeiro - Dias passados em Tenerife, ali retidos devido a condições meteorológicas adversas.

11 de Janeiro - "Soltamos amarras e largamos rumo ao porto de Radazul, 6 milhas a sul para abastecimento de gasóleo, aqui inexistente. (...) Foi de papo cheio que nos fizemos ao mar primeiro tomando rumo ao sul para afastar Tenerife e depois o 240, passando ao sul das ilhas LaGomera e Hierro, um rumo que nos faz progredir para sul enquanto nos afastamos da costa Africana, que evitamos para estar livres das depressões com ventos contrários que aí se formam.".

12 de Janeiro - 2723N 1744W
"Apanhámos bom vento com muito mar e escassas horas depois foi-se o vento e o mar aumentou e atormentou nossas próximas 36h. Eu nem quero falar muito sobre essas horas em que a barca mais parecia um penico no meio do oceano. (...) Durante a tarde o céu descobriu, a temperatura subiu e o vento ainda não apareceu mas já fez algumas ameaças. A previsão dá-nos bons ventos nos próximos dias. Como temos que carregar baterias vamos usar motor 2h e aproveitamos algum andamento. (...) Algumas ondas insistem e abanam a barca às vezes até não poder mais e depois passam e volta a calmaria e até que o vento se lembre de nós será este o ritmo da nossa existência."

13 de Janeiro - 26 57N 18 27W
"O dia amanheceu limpo e com uma calmaria fresca. (...) No exacto momento em que o mariscador toca a adriça para subir a grande, bumm, o spi faz-se em dois spis e era ver o semblante da tripulação impotente perante tal espectáculo (...) Devo confessar que não me parece ser o spi uma vela adequada à barca pela razão de que é um recurso para light airs e light airs não fazem mover a barca e toda a sua carga e quando existe vento capaz de mover a barca o spi não aguenta o seu peso de deslocamento. O que se passou atrás explica-se assim: O vento vinha subindo gradualmente nas ultimas horas e soprava a 10 nós; o mar vinha a crescer e o andamento intensificou-se, chegara o momento de arrear o spi. Durante a manobra, o spi não aguentou o esforço extra provocado pela ressaca de uma onda que entravam pela alheta de barlavento e cedeu abrindo-se horizontalmente ao meio. No próximo porto tentaremos a sua reparação."

14 de Janeiro - 2541N 2020W
"Nas últimas 24h fizemos 90 milhas, o que se aproxima com a média da semana anterior e nos tirou já da influência do Arquipélago das Canárias, usufruindo agora de condições mais estáveis e, sem margem para dúvidas, do usufruto dos ventos alísios que nos propulsionam no sentido do rumo correcto."

15 de Janeiro - 2518N 2109W
"O mar alterado é uma constante e bastante incómodo mas, quando tocado por bom vento, a coisa muda de figura e a barca começa a conseguir vencer as ondas e começamos a praticar qualquer coisa mais parecida com velejar. O peso desta barca e da carga que leva deve andar pelas 12 toneladas e associado à sua forma bojuda condicionam muito o seu andamento e, mesmo com bastante vento, a genoa vê-se grega para a tirar de dentro de água e puxa de tal maneira por ela que até a barca abana. (...) O baloiçar é tanto que, olhando para fora, consigo ver a linha de horizonte de cada lado, calculando o angulo do baloiço em 90º. "

16 de Janeiro - 2414N 2236W
Continuamos com boas condições de vento, que sopra de NE com uma intensidade que varia entre os 15 e 25 nós pelo que, ao aproximar-se a noite, substituímos a genoa, que teve óptimas prestações - aqui a fazer o trabalho de um spi - por um estai que proporciona um trânsito supostamente mais descansado. O mar esse é que não dá descanso a estes músculos fatigados, não deixando que relaxem por um momento, inclusive a dormir, pois o constante balancé obriga a que o corpo se adapte constantemente às posições vertiginosas, procurando uma posição estável numa instabilidade completa. (...) Às 24.00h cá estamos nós em cima de Trópico de Câncer."

17 de Janeiro - 2276N 2331W
"A luz da agulha deu o berro e já há alguns dias que improvisamos e durante a noite temos usado lanternas e até um computador de pernas para o ar, que estava tocando musica, para iluminar aquela que é a lanterna que nos guia. É dos objectos mais importantes na condução do navio por fornecer, em tempo real, a nossa proa que é a direcção para onde estamos a seguir, permitindo que permanentemente sejam feitas as emendas necessárias à manutenção do rumo certo. Conduzir sob orientação de GPS não permite um governo eficaz pelo facto de os dados por ele fornecidos “estarem atrasados” alguns segundos, que é o tempo que demora a sua viagem de ida e volta ao satélite para trazer a informação, sendo este usado para marcar os rumos e ver distancias e toda uma parafernália de opções em permanente estudo. A agulha, também conhecida por bússola, essa sim proporciona a suavidade necessária para governo, sobretudo nestas condições de mar e vento de popa, que obrigam a constantes emendas de leme. (...) O estai tem mostrado ser a vela adequada para ventos de mais de 20 nós e tem mesmo surpreendido com a sua prestação com ventos mais fortes em que consegue “tirar a barca da água” e imprimir e manter uma velocidade vertiginosa."

18 de Janeiro - 2148N 2425W
"Atingimos um ponto durante a noite em que, finalmente, vamos fazer rumo ao Mindelo. (...) Estes barcos de madeira precisam de muito vento e pano com fartura para mostrarem as suas qualidades, mas, uma vez trimados com as velas certas, dão grandes alegrias aos ocupantes pois os seus movimentos passam a ser suaves, mergulhando e saindo da onda como que a procurar o caminho mais subtil e, se lhe damos rédea, passa a contornar cada onda dando-lhe o flanco mais indicado. Estes são momentos para ser vividos. Não contados. A falta de vocabulário não permite um relatório fiel."

19 de Janeiro - 1948N 2444W
"Toda a noite seguimos com grande andamento, com as três velas de origem da barca que vieram de França, que permitiram uma noite algo descansada tendo, na alvorada, sido trocada a bujarrona pela genoa. (...) Navegou-se toda a noite com bastante pano o que possibilitou o recorde absoluto desta viagem com 135 milhas percorridas em 24h. Esta média só é possível graças à prestação da genoa que é muito boa e trabalha bem com muitos ângulos de vento (...) O problema tem sido com o mastro que é terrivelmente flexível no topo, quando armado com a genoa. Não percebemos até ao momento se o processo de construção que esteve na sua origem (ripas de madeira coladas com epoxy) conduz a que isto aconteça e se este comportamento é normal."

20 de Janeiro - 1734N 2455W
"Terra á vista!!! Às 12h10 é avistada a primeira ilha do Arquipélago de Cabo Verde, Santo Antão, bem na proa. (...) Penetrando na cidade do Mindelo já de noite, de calças arregaçadas, pelo caminho da praia foi como começámos a absorver as influencias positivas deste Povo sempre disponível e muito agradável que nos recebeu de braços abertos, feliz por ver os portugueses. (...) Os dias que seguem serão destinados a usufruir das maravilhosas condições existentes no local e a proceder a trabalhos de manutenção e reparação nomeadamente de velas (...) Do ponto de vista da sua construção e estrutura Nª.Sª. da Aparecida encontra-se de perfeita saúde revelando o excelente trabalho de recuperação efectuado pelo Mestre Acácio e seu filho Rui, de Sesimbra, utilizando técnicas ancestrais."


Nota - o percurso anterior encontra-se referido aqui.

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