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quarta-feira, setembro 12, 2007

Passagens

     O escritor José Cardoso Pires tinha uma curiosa expressão para identificar livros, ou autores, que não apreciava: "passo bem sem ele". (  — "Então qual é a sua opinião sobre o escritor fulano de tal?"   — "Passo bem sem ele."   — "E sobre o livro tal?"   — "Passo bem sem ele.")
     Já António Lobo Antunes diz que tem dificuldade em não gostar seja de que livro for, embora tenha uma lista restrita dos que gosta mais.
     O escriba passou-me o testemunho de uma estafeta destinada a revelar "dez livros que não mudaram a minha vida". Trata-se de uma brincadeira, como é óbvio, mas mesmo assim tenho dificuldade em ser tão agressivo com um livro. Faz lembrar a desagradável frase de José Cardoso Pires, carregada dum indisfarçável desprezo:   — "Passo bem sem ele." Nenhum livro merece isso. Sabe-se que há pessoas que não conseguem ler certos livros, mas o problema reside talvez nessas pessoas, não nos livros — e não me refiro a analfabetismo, mas sim a iliteracia e preconceito.
     Há certamente muitos livros que não mudaram a minha vida: salvo erro, todos os que existem (a famosa montanha de papel do conhecimento). Mas, no seu conjunto, os livros mudam a vida de todas as pessoas, mesmo daquelas que não leram nenhum. Neste caso, como seleccionar 10 livros? Apenas utilizando um outro qualquer critério. Por exemplo: "os últimos dez livros que folheei", ou "os primeiros dez livros de lombada azul na estante de literatura portuguesa da Biblioteca de Sesimbra", ou ainda "dez livros de que ando há tempo a tentar lembrar o título e não consigo". Mas, assim, o verdadeiro critério de selecção seria este último e não o inicialmente proposto.
     É sabido que não há livros bons ou maus, apenas bons e maus leitores. Por tudo isto o escriba vai ter que ter paciência, mas desta vez passo
.

4 Comentários:

Às 13/9/07 , Anonymous Anónimo disse...

Sei que não lhe interessa nada, mas não concordo mesmo nada consigo.

 
Às 13/9/07 , Anonymous Anónimo disse...

Uma coisa é certamente notável: das várias coisas que escrevi, não concorda com nada. Não há dúvida que há aqui um padrão, e que é interessante. É pena que não fundamente as suas discordâncias, o que seria igualmente (ou adicionalmente) interessante.
J.A.

 
Às 13/9/07 , Anonymous Anónimo disse...

Sobre este assunto, sugiro a leitura (ou consulta) de:
- Aulas de Literatura, de Vladimir Nabokov (Relógio d'Água)
- A Experiência de Ler, de C. S. Lewis (Porto Editora)

Deste último, cito: “Só podemos decidir que um livro é mau se o lermos como se, afinal, pudesse ser muito bom.”
J.A.

 
Às 13/9/07 , Blogger escriba disse...

O João passou e eu aceito o repto.

Tal como ele, vejo sobretudo neste exercício uma brincadeira, um passatempo, um pretexto para uma troca de ideias. Pouco mais do que isso.

A escolha que fiz não envolve propriamente menosprezo para com as obras arroladas. Pretende, apenas, salientar a importância relativa que lhes atribuo, designadamente dentro da bibliografia de cada autor.

Assim, por exemplo, "Manhã Submersa" ou "Cântico Final" marcaram-me muito mais do que "Aparição", se bem que este último título seja frequentemente considerado a obra-prima de Vergílio Ferreira.

Na camiliana, ao "Amor de Perdição" prefiro claramente "O Judeu", que acabei de ler e que, além de ser uma denúncia notável dos crimes da Inquisição, nos ajuda a compreender o país sorumbático que hoje somos.

Só não concordo com o João Aldeia quando diz que não há livros bons ou maus, apenas bons ou maus leitores. Mas, depois de ler a citação de C. S. Lewis, calculo que seja este o sentido útil a retirar da sua afirmação. Na verdade, mesmo que não houvesse maus livros, haveria sempre maus escritores, supondo eu que não podemos renunciar aos valores...

Passo.

 

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