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domingo, julho 01, 2007

Cristina Branco

     O espectáculo de Cristina Branco no Cineteatro João Mota, ontem, foi muitíssimo bom. Durante hora e meia, 20 canções, na sua maioria fados do reportório de Amália Rodrigues, deixaram rendida a sala cheia com uma mistura de sesimbrenses e forasteiros - tive até oportunidade de falar com um casal inglês que conhecia a obra da fadista. O alinhamento do espectáculo - que reproduzo mais abaixo - é muito parecido com o do DVD "Live" (ao vivo), gravado no ano passado na Holanda.
     Os menos atentos talvez só se tenham apercebido que se tratava de fados já antes interpretados por Amália Rodrigues por altura da sétima música ("Havemos de ir a Viana") ou, mais para o fim, com "Barco Negro", "Povo que Lavas no Rio" ou "Maria Lisboa". Os outros são fados menos conhecidos, nomeadamente na voz de Amália, ou nem sequer são fados, como "Redondo Vocábulo" (de José Afonso), "Rosa" (de Pixinguinha) ou "Porque me olhas assim?" (de Fausto, mas aqui a classificação é difícil).
     É conhecido o dilema de quem reinterpreta o repertório de uma grande artista: ou faz igual, limitando-se a copiar, ou inova e arrisca-se a entrar em conflito com a memória afectiva que fixou determinadas interpretações de génio como sendo definitivas. Cristina Branco foi pelo segundo caminho, obviamente, de acordo com a sua característica inovadora e experimental. Ela própria parece não fazer muita questão de que a classifiquem como fadista: não está preocupada com esse rótulo.
     O facto da maioria dos fados ser desconhecida (o que diz muito acerca de quanto os portugueses têm a descobrir em Amália) ajudou a atenuar um possível conflito com o cânone. O que ocorre com Cristina Branco é que o acompanhamento musical, soberbamente interpretado, afasta os fados daquelas profundezas tenebrosas e pesadas, onde domina o fatal destino. Ora uma canção como "Barco Negro" não perde nada com esta interpretação mais clara, mais enriquecida musicalmente, onde o ritmo sincopado parece apelar à dança. Afinal, não começou o fado por ser dançado? E não é "Barco Negro" uma música originalmente composta no Brasil, embora com outra letra?
     A reinvenção destes fados por Cristina Branco ousou tocar num outro cânone: o dos complexos arranjos de Alan Oulman. Esta inovação foi mais evidente em "Maria Lisboa", que sem perder o "repenicadinho" ganhou ali novos sons, com solos a recordar a música rock, nomeadamente Mark Knopfler em "Sultans of Swing". O mesmo aconteceu ontem no instrumental que desempenhou a função de intervalo (que a sessão não teve).
     Mas não se pense que a interpretação de Cristina Branco se destina a "aligeirar" o que nos canta, comparativamente a Amália Rodrigues. Por exemplo, o fado "Cansaço", talvez o mais profundo e intimista de todos os poemas ontem cantados, tem na voz de Cristina Branco uma densidade maior do que na versão gravada por Amália. O mesmo se pode dizer de "Tive um coração, perdi-o" (com poema de Amália, e que abriu o espectáculo) ou "Trago fado nos sentidos" (poema de Amália, igualmente).
     O acompanhamento instrumental constou de uma guitarra portuguesa, viola, viola baixo e piano. Piano e guitarra levantam um grande problema: qual dos dois é que "manda" ali? Neste caso, inteligentemente, foi a guitarra. O piano fez um excelente "modesto" acompanhamento, destacando-se do som geral sobretudo com pequenos harpejos nas notas agudas ou nas transições entre versos, contribuindo para criar um clima de leveza consistente (não me ocorre outra analogia: como a da pala de Siza Vieira no Parque das Nações). O piano acompanhou em exclusividade "Porque me olhas assim" e "Redondo Vocábulo".
     Tal como já escrevi noutra altura, penso que este deverá ter sido o concerto do ano em Sesimbra. Podem cá vir estrelas mais visíveis na abóbada mediática, mas dificilmente presenciaremos um espectáculo que brilhe tanto no mais íntimo do nosso universo cultural.

Espectáculo no Cineteatro João Mota - 30 de Junho de 2007 - alinhamento:

  1. Tive um coração, perdi-o                        
  2. Trago fados nos sentidos
  3. Sete pedaços de vento
  4. Fria Claridade
  5. Navio Triste
  6. Destino
  7. Água e Mel
  8. Havemos de ir a Viana
  9. (instrumental)
  10. Redondo Vocábulo
  11. Fado Perdição
  12. Barco Negro
  13. Porque me olhas assim?
  14. Ai, Maria
  1. Cansaço
  2. Rosa
  3. Formiga Bossa Nova
  4. Povo que lavas no rio
  5. O Meu Amor é Marinheiro
  6. Os teus olhos são dois círios (em encore)
  7. Maria Lisboa (em encore)
Intérpretes:
  • Cristina Branco — voz
  • Bernardo Couto — guitarra portuguesa
  • Ricardo Dias — piano e arranjos
  • Alexandre Silva — viola
  • Fernando Maia — baixo
  • A letra da maioria destas músicas encontra-se aqui  → →.

    3 Comentários:

    Às 2/7/07 , Anonymous Maria vem da vila disse...

    Também estive no concerto da Cristina Branco no sábado passado. Não posso dizer que tenha ficado tão maravilhado como o autor do post, mas ( e apesar de ser admirador da cantora desde os primeiros discos)talvez isso se deva ao facto de já ter assistido por variadas vezes a recitais da mesma ( salvo erro o último foi no jardim de Inverno do teatro municipal São Luis em que Cristina Branco interpretava repertório de Zeca Afonso).
    Mas uma coisa confesso que me admirou. O comportamente de algumas pessoas presentes na sala. Talvez seja da novidade de terem um teatro,( que não é a mesma coisa que um palanque montado no Largo das sentinas ou na fortaleza)ou por outra qualquer razão, a verdade é que algumas pessoas tem que entender que a cadeira do espectador da frente não é um tambor, que o espectáculo decorre no palco e cabe á plateia manter o silencio e o respeito.
    Também convem que os responsaveis da sala entendam que quando o espectador compra um bilhete onde está impresso que a hora do espectaculo é as 21.30H, esse mesmo espectador leve essa informaçao com seriedade. É que nem todos temos o dom da adivinhação.
    Seja como for, foi uma noite muito agradável e um espectáculo de grande qualidade.

     
    Às 2/7/07 , Blogger J.A. disse...

    Agradeço o seu comentário.
    Havia de facto uma (ou melhor, "meia") discrepância ente a hora impressa no bilhete (9:30) e a anunciada noutros locais (10:00).
    Como não existe o hábito de concertos de fado, a experiência de alguns dos espectadores será a das "noites de fado" das colectividades, onde o ambiente é mais ruidoso e se batem palmas a compasso nos fados mais corridos, como aconteceu nalguns momentos desta noite. Agora essa de baterem no banco da frente é original: não dei por isso mas espero que a moda não pegue. Mas em geral o silêncio na sala foi o adequado.
    Gosto de fado, e particularmente de Amália Rodrigues: para além da sua capacidade interpretativa, a evolução que deu a esta canção. Essa componente histórica (as diversas fases e estilos, a ligação com o que se vivia no país) é das coisas mais interessantes - e também mais desconhecidas, pois o que em geral se conhece é uma Amália intemporal de meia-dúzia de fados clássicos. Muitos fadistas continuam a cantar esse fado sem tempo e sem história, enquanto outros têm inovado, o que é sempre uma aventura incerta. O facto de Cristina Branco ter incorporado nestes fados de Amália características musicais inspiradas numa música popular mais recente é para mim duplamente interessante: quer no resultado artístico obtido, quer nessa leitura histórica que eu valorizo.

     
    Às 17/7/07 , Blogger Navegador disse...

    por acaso tambem vi este concerto .

     

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