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segunda-feira, agosto 07, 2006

Peixe e homens


Peixe-espada preto na doca de Sesimbra

[...] «É meia-noite na lota de Sesimbra e só se vê peixe e homens. O Luís Adrião chega carregado ao cais. Gruas retiram os contentores e a tripulação de um e do outro apressam-se a separar o peixe "conforme a qualidade", que é como quem diz, a espécie. Sardinhas para um lado, carapau para o outro... Justino distribuiu a atenção entre quem quer vender e os que vão comprar com a sirene a anunciar mercadoria. Os peixeiros tomam posição na bancada. Comando na mão, reagem ao preço-base anunciado ao microfone, depois de verem uma amostra do peixe que cada barco pescou nessa noite. Há um código de conduta a respeitar e aqueles homens conhecem muito bem as regras. "Só se senta aqui quem estiver identificado por um número atribuído pela Docapesca e em troca de uma fiança", explica uma vez mais Justino, que afinal se chama João Manuel e foi jogador de futebol no Varzim, no Paços de Ferreira e no Sesimbra.

«João Marquês é um desses peixeiros encartados. Há 30 anos que "todas as noites" vai à lota de Sesimbra. Acaba de comprar 500 quilos de sardinha que vai arrumando com muito gelo em caixas de esferovite seguindo depois para o MARL. Há-de estar em Lisboa às duas horas, quando o mercado abrir. Outros ficam ainda, à espera de uma segunda oportunidade. Anunciam-se sobras no Luís Adrião e há nova correria à bancada. Quinze cabazes de carapau são postos à venda a um preço-base de dois euros e vendidos a 0,85 a quem carregou primeiro no botão do comando. Ninguém ofereceu mais e em menos de dois segundos o peixe foi arrematado. É uma da manhã e Justino anuncia novo barco para daí a meia hora. "Carregado de cavala", precisa.

«O cais já está quase vazio e há peixe espalhado por todo o lado. É hora de lavar os barcos que hão-de voltar ao mar quando forem umas três e meia porque a partir das seis voltará a ser hora de ponta no cais. A lota nunca fecha, mas nem sempre é hora de peixe. Depende dos dias, depende do mar. Justino, o ex-jogador, há 26 anos guarda-nocturno da Docapesca, acaba o turno quando forem cinco da madrugada e já não irá comandar as chegadas da manhã. Estará a dormir quando o mercado abrir e há-de ouvir as queixas de Maria Antónia, a peixeira. Deseja a reforma, diz que já houve melhores dias enquanto compõe a montra da sua banca, dando destaque à arruma a pescada d'anzol e à pata-roxa para a caldeirada. Ao lado já há carapau à venda. Custa três euros e meio e consta que veio de Setúbal. »

DIário de Notícias Online
6 de Agosto de 2006

3 Comentários:

Às 7/8/06 , Anonymous Anónimo disse...

Luis Adão ou Luis Adrião?

 
Às 7/8/06 , Anonymous Anónimo disse...

Uma data de imprecisões .

 
Às 7/8/06 , Blogger J.A. disse...

"Luís Adão" é o que está na notícia do DN, mas é certamente um erro, deve ser a traineira "Luís Adrião" - pelo que emendei o texto.

 

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