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segunda-feira, agosto 14, 2006

Manipulação


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Esta fotografia de Sesimbra, da autoria de Alberto Frias, foi incluída na edição de sábado passado do jornal Expesso, num artigo com o título «'Litoral Killer'», pretendendo exemplificar a destruição do litoral português.

Como se pode observar, o fotógrafo procurou um ponto de vista de onde apenas se avistassem, quase exclusivamente, edifícios modernos, ocultando quase completamente o núcleo mais antigo da vila. Além disso, utilizou um "zoom", comprimindo e achatando a imagem. Quem conhece a vila de Sesimbra sabe que ela não é assim, não é exclusivamente constituída - mesmo na zona fotografada - por aqueles prédios modernos. Mas como se pretendia fazer valer um argumento - o de que o litoral foi destruído - o fotógrafo procurou, com engenho e arte, "eliminar" o que não interessava ao seu argumento e salientar o que lhe parece dar razão. Esta manipulação é, de resto, reforçada no texto, onde Portugal é designado como um "país em vias de «des-desenvolvimento»".

Saliente-se que se trata de um artigo de jornalismo, e não de opinião, onde a informação deve ser factual e não reproduzir as crenças e ideologias dos autores. O artigo apoia-se num estudo da Agência Europeia do Ambiente sobre as alterações das zonas costeiras de Europa nos últimos 15 anos, estudo que pode ser consultado em linha aqui (resumo em pdf aqui e uma versão mais completa, em inglês, aqui).

A manipulação feita pela fotografia é, pois, paralela à que se encontra no texto, onde se salientam aqueles aspectos que mais penalisam Portugal e se omitem os que poderiam mostrar situações em outros países bem piores do que as nossas. Por exemplo: o artigo salienta que "foi em Portugal que, entre 1990 e 2000, se deu a mais rápida ocupação do litoral, com um aumento de 34% de áreas artificializadas, contra 18% em Espanha", mas omite outros indicadores, tais como ter a Espanha e a Itália zonas costeiras com maiores densidades populacionais no litoral, ou a elevada percentagem de zonas costeiras protegidas em Portugal, relativamente a outros países.

Salientar parte da realidade (a que interessa ao argumento que se pretende defender) e omitir a outra parte, é uma forma de manipulação e distorção da informação equivalente à mentira. É isso que faz o artigo e a fotografia do Expresso. As pressões para ocupação do litoral com construções e ocupação turísticas são certamente um problema preocupante, mas aqueles que distorcem grosseiramente a informação não estão, seguramente, a defender a Qualidade de Vida.

9 Comentários:

Às 16/8/06 , Blogger Pexit@ Calhandr@ disse...

Não concordo com o facto de acusar a jornalista e o fotografo de camuflarem a realidade e muito menos de a distorcerem. A primeira linha de prédios é aquela que se vê na fotografia e a marginal nascente de Sesimbra é um exemplo do que não se deve fazer. Aos erros do passado, edificio Califórnia, permitiu a CMS que se construi-se uma crassa ilegalidade com o edificio Mar da Califórnia que contrariou descaradamente o PDM e o dominio publico maritimo, dada a ua dimensão exacerbada.
Para finalizar gostaria de lembrar que Luísa Schmidt é reconhecida como uma especialista na área do ambiente e o seu trabalho altamente reconhecido, mesmo fora do nosso país.

 
Às 16/8/06 , Blogger Pexit@ Calhandr@ disse...

Correcção: Quando me referi aos erros do passado, queria referir-me obviamente ao edificio falésia (onde fica o tribunal de Sesimbra.

 
Às 16/8/06 , Blogger J.A. disse...

Agradeço o seu comentário, mas chamo a atenção para o facto de que o parágrafo onde escreveu que "Luísa Schmidt é reconhecida como uma especialista na área do ambiente..." configura uma argumentação do tipo "ad hominem". O que nós devemos utilizar no debate são os argumentos e não o preconceito (positivo ou negativo) relativamente às pessoas. Será Luísa Schmidt intocável ou infalível? Não creio. O certo é que, do estudo da AEA, a jornalista apenas faz uma citação parcial para dar a ideia de que Portugal é o pior caso de ocupação do litoral europeu, o que não é verdade. Isso não me parece bom jornalismo, independentemente da causa ser boa. A preservação do ambiente é importante, mas a verdade e isenção na informação também são.

 
Às 16/8/06 , Blogger Pexit@ Calhandr@ disse...

Obrigado, por agradecer o comentário, não tem de quê. Contudo, e quantos aos argumentos da Luísa Schmidt, infelizmente para nós que gostamos de Sesimbra, são irrefutáveis e a fotografia fala por si. a betonização da falésia nascente da Vila é um facto que não pode ser contrariado apenas porque a Fotografia está bem tirada na perspectiva da reportagem.
Ainda bem que Portugal não é o pior caso de ocupação do litoral segundo o dito relatório, mas isso não quer dizer que tenhamos de anuir às asneiras que os nossos autarcas fizeram e continuam a fazer. A troco de tostões vendem-se coisas impagáveis, como a falésia de Sesimbra e a identidade cultural da terra.

 
Às 18/8/06 , Anonymous Anónimo disse...

Pela boca morre o peixe, ou quem manipula o quê

De acordo com J.A. “A manipulação feita pela fotografia é, pois, paralela à que se encontra no texto, onde se salientam aqueles aspectos que mais penalisam Portugal e se omitem os que poderiam mostrar situações em outros países bem piores do que as nossas.”

A linha argumentativa de JA assenta na lógica de que existem “situações em outros países bem piores do que as nossas”

Com tão fraca e , vai-me desculpar, infantil argumentação, J.A. coloca-se ao lado de quem pensa que o que está mal ainda podia estar pior, mostrando cristalinamente as crenças e ideologias do autor deste blog.

 
Às 18/8/06 , Blogger J.A. disse...

Caro anónimo:

a) A imagem urbana de Sesimbra aparece deturpada pela fotografia, através do efeito de compressão do zoom. A fotografia nunca transmite a realidade, e pode distorce-la violentamente: se não sabe isso, é porque o ingénuo é você.

b) O texto de Luisa Scmidt, pretensamente "jornalístico", distorce as informações do estudo, salientando apenas parte do relatório, "mostrando" que somos piores do que a Espanha, por exemplo, omitindo indicadores que mostram o contrário. Não sei se sabe, mas o relato jornalistico (neste caso, de um estudo) deve ser isento e imparcial.

c) a entrada que escrevi não é especificamente sobre a falésia de Sesimbra ou a defesa do litoral, mas sim sobre a verdade do jornalismo. Eu prefiro um jornalismo de verdade, mesmo que diga coisas que são desagradáveis, do que um jornalismo de mentira, tendencioso e ideológico, ainda que diga coisas simpáticas.

d) eu respeito a opinião dos outros, por duas ordens de razões: (1) gosto do debate em si, da dialética da argumentação; felizmente que não tem a predominância que tinha no período da escolástica, mas acredito que contribui para a descoberta da verdade; (2) creio sinceramente que ninguém tem acesso à verdade absoluta e que o pior inimigo da verdade são as convicções; entristece-me ver aqueles que, tendo formado uma convicção, saltam de contentinhos ao ouvir/ler afirmações que confirmam as suas convicções, e que insultam a inteligência humana ao desdenhar a argumentação alheia só porque não confirma as suas convicções.

e) releia o seu pobre texto: não responde a nenhum dos meus argumentos, não contrapõe nada de sólido; ou seja: não argumenta. Atrevo-me a imaginar que deve ser alguém com muito pouca experiência de vida, pois recorre a um dos mais baixos golpes do debate de ideias: acusando-me de, ao expor abertamente uma posição, me colocar ao lado dos "maus" (neste caso, dos que se contentam com o que há, por muito mau que seja, porque ainda podia ser pior...)

...

Olhe: leia, cultive-se, informe-se, aprenda a respeitar as opiniões alheias, combatendo-as com argumentos e não com insinuações.

 
Às 21/8/06 , Anonymous Anónimo disse...

Caro J.A.
O seu comentário das 16:51 que muito agradeço, vem na linha do seu post inicial. Talvez a única novidade neste seu comentário, vai voltar a perdoar-me, seja uma maior dose de infantilidade, ou de pouca maturidade argumentativa. O J.A. ainda está na fase da repetição, imaginando que por dizer muitas vezes a mesma coisa ela passa a ser convincente e verdadeira.
A sua linha argumentativa tem como chapéu o facto de existirem países com um litoral mais degradado pelo imobiliário que o litoral português.
A sua coerência argumentativa tipo “a coisa podia ser pior” ou “ainda à piores que nós” aparece assim como que um branqueamento da degradação do litoral português. Torremolinos em Espanha ou Varadero em Cuba serão piores que a nossa Vila? Penso que sim que são muito piores. Mas isso não serve para atenuar os disparates a que o litoral de Portugal, incluindo Sesimbra, tem estado sujeito.
Este é o ponto.
Bem pode o J.A tentar desacreditar a autora do artigo e o fotógrafo do Expresso. Não conseguirá no entanto, infelizmente, apagar as construções na falésia da vila de Sesimbra nem os projectos já aprovados ou à beira de aprovação.
O ângulo da foto, a abertura do diafragma, a objectiva e tudo o resto deve reconhecer que é poeira. Apenas poeira.
De qualquer forma aguardemos um debate sereno e esclarecido sobre a construção no litoral de Sesimbra e a pressão imobiliária no concelho.



Anónimo das 12:48

 
Às 21/8/06 , Blogger J.A. disse...

Ó caro anónimo, ou você não percebeu ou então fui eu que me expliquei mal: não defendi - nem defendo - a posição de que "a coisa podia ser pior" ou de que "ainda há piores do que nós". Isto nos debates há que acreditar no que as pessoas dizem, sendo muito feio atribuir-lhes afirmações que não fizeram (é um velho truque, mas aqui não passa).

Também já expliquei - e devo voltar a repetir, porque, sinceramente, creio que não percebeu - que o meu texto inicial não foi sobre o litoral ou a falésia da Califórnia, mas sim sobre uma manipulação, ou distorção, jornalística, dos autores da foto e artigo.

Eu creio que há muito por onde zurzir no meu texto, mas, por favor, ataque o argumento que lá está e não coisas que eu não escrevi. Veja lá o que eu escrevi e tente rebater:

1) aquela foto deturpa a realidade; supostamente, deveria ser sobre a falésia e, portanto, ter uma fotografia da falésia, mas não: inclui a Fortaleza, o edifício da Sociedade Musical Sesimbrense, o Hotel Sana, e tudo até ao fim da marginal. Nada disso é Falésia.

Mas, além disso, utilizando o zoom, apresenta-se uma imagem que não existe, não é real: nenhum olhar humano, em nenhuma parte da vila, tem aquela visão. Trata-se de algo só possível com manipulação duma lente que anula a profundidade visual.

É possível rebater este meu argumento? Eu quero acreditar que sim (sou um optimista). Mas será que você o consegue?

2) segundo argumento: ao citar um estudo europeu, a jornalista Luisa Schmidt cita-o apenas parcialmente, dando a ideia que somos o pior país da Europa em ocupação do litoral.

Sabe? - eu acho que em Portugal tratamos muito mal o litoral. Vi, com grande desgosto, nascerem aqueles edifícios isolados na Falésia, há uns bons 40 anos.

Contudo, não gosto de ser enganado. Não gosto de ver mentiras sobre a minha terra - seja Sesimbra, seja Portugal. Não gosto que a caluniem. Alguém que nunca cá tenha vindo, vendo a foto, fica com a ideia de que Sesimbra é uma aberração urbanística - uma mentira inaceitável para quem gosta de Sesimbra.

Finalmente, outra mentira, desta vez sua: a afirmação de que eu tento ou pretendo desacreditar a autora do artigo e o fotógrafo do Expresso. Ora eu apenas escrevi sobre aquela foto e as afirmações daquele artigo relativas ao estudo. Estou no meu direito. Afirmar, como você faz, que pretendo desacreditar as pessoas, é apenas uma variante da falácia "ad hominen". Você não debate o argumento, diz apenas que eu, ao expor a minha opinião, pretendo desacreditar alguém. Ou seja: a ser assim, todos teríamos de calar ideias críticas porque senão estaríamos a desacreditar alguém... E você pensa que está isento dessa regra? Então o que lhe dá o direito de criticar o que escrevi? Não terei eu o mesmo direito?

 
Às 21/8/06 , Blogger J.A. disse...

Caro anónimo: atendendo à sua afirmação final: "De qualquer forma aguardemos um debate sereno e esclarecido sobre a construção no litoral de Sesimbra e a pressão imobiliária no concelho", peço-lhe que esclareça o que nos quer dizer:

1) Que este nosso debate não é sereno nem esclarecido?
2) Que as suas afirmações são serenas e esclarecidas e as minhas não?
3) Que se vai esforçar, no seu próximo comentário, para escrever algo sereno e esclarecido?
4) Que você vai escrever, de modo sereno e esclarecido em algum outro local? Nesse caso, importa-se de indicar aos nossos leitores qual ele é?

À primeira leitura pareceu-me que era uma alfinetadazinha na minha pessoa, mas depois pensei: não, não o quero crer - este leitor nunca participaria num debate que considerasse exaltado e obscurecido. Mas, por favor, não nos deixe na dúvida.

 

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