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segunda-feira, junho 19, 2006

Festa


         «À festa dos Santiagos compareceram noventa convivas, muitos dos quais sem terem sido realmente convidados, e duzentos e oitenta e sete mendigos, mas ninguém se queixou de falta de comida, muito embora os indigentes só ao fim de três dias tivessem recebido ordem de marcha, levando ainda os alforges cheios de pão, nacos de carne e doces variados. Durante dois dias e uma noite os espetos não pararam de assar magníficos lombos, duas mulheres confeccionaram continuamente saborosas empadas de javardo, o ensopado de borrego servia-se em grandes tachos de arame, e o cheiro da carne de porco frita, espalhando-se por toda a charneca, foi o principal responsável pela afluência de número apreciável de convivas e da maior parte dos pedintes.
         Com o sangue dos porcos abatidos cozinhou-se a estranha cachola, valorizada por Adelaide com o uso abundante de especiarias das Índias, de que até à data as pessoas só ouviam falar como sendo luxo da mesa dos ricos. A cachola, que era uma vez ao ano o pitéu excelente dos remediados quando adregavam matar o porquinho, adquiriu nesse dia título de nobreza pela introdução caprichosa dos cominhos, da pimenta e dos cravinhos-da-índia, condimentos tão raros como o ouro. Mas foram os doces que causaram o deslumbramento dos convivas e deram origem a incontroladas manifestações de gula. Estimuladas por Adelaide, a quem se metera na cabeça vencer pelo insólito grandioso, as mulheres do monte tinham arrancado à memória a lembrança de velhas receitas aprendidas quando eram jovens casadoiras, mas nunca postas em prática pela escassez das suas vidas.
         Desde os queijinhos de hóstia aos doces secos à imagem dos objectos da predilecção de quem os criava, passando pelos beijinhos de invólucros mimosos, pelo toucinho-do-céu e pelos enjoativos ovos moles, era um espectáculo que todos começaram por abordar respeitosamente, incrédulos da arte capaz de originar tais maravilhas, e em seguida atacavam com fúria destrutiva, na ânsia voraz de tudo provar e deglutir, que os levava, quando já não podiam ingerir mais, a ir devolver atrás de um sobreiro, nomeio de brados de desgosto pela perda de tais iguarias, voltando depois apressadamente a mergulhar na exuberância derramada sobre as mesas, debicando aqui um palito de amêndoa, ali uma pépia recheada de pão ralado, mel e cravo-do-maranhão, mais além um pastel com a forma de um braço em intenção votiva a Santo Amaro.»

Mário Ventura
Vida e Morte dos Santiagos
p. 94/95

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