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sexta-feira, junho 30, 2006

António Garcia Castanheira


Soube hoje do falecimento do António Garcia Castanheira, meu inesquecível companheiro da juventude.

Engenheiro de profissão, o Castanheira tinha grande dificuldade em lidar com a burocracia e a hipocrisia das instituições, e por isso enveredou por aquela sua actividade profissional de empresário em nome individual, que desde o seu casamento desenvolveu com a estreita colaboração da sua companheira Fernanda. Mas até mesmo neste domínio, nunca quiz submeter-se a quaisquer estruturas ou rotinas, mesmo que fossem da sua criação, e manteve-se por vontade própria como pequeno empresário, criativo e humanista, dedicando-se a um sem número de ramos de negócio, mas mantendo-se suficientemente livre para, se assim o entendesse, ficar na conversa com os amigos durante o tempo que entendesse, ou deslocar-se para distantes paragens, sem com isso prejudicar a vida de ninguém.

Uma vez acompanhei-o numa visita à terra de origem dos pais, creio que na zona da Lixa. Naqueles dois dias que por lá estivémos conheci uma faceta algo surpreendente da sua vida. Sendo, juntamente com a sua mãe, proprietário de terras naquela região, uma grande quantidade de gente que lá trabalhava tratava-o com a deferência devida a um grande proprietário agrícola. Eu nem queria acreditar: o Castanheira que eu conhecia de Sesimbra, pouco preocupado e até desprezando a pirâmide social da vila (muito rígida, nessa altura), era ali tratado como uma pessoa de grande estatuto social. E ele, claro, ria-se da minha basbaquice.

Parte da minha educação musical da juventude, naqueles anos 60 e início dos 70, devo-a ao Castanheira, que tinha lá umas artes de arranjar os discos importantes antes mesmo de passarem na rádio - e mesmo de muitos que não passavam. Aconteceu assim com David Bowie, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Frequentemente as coisas passavam-se assim: num qualquer dia da pacata vida sesimbrense, aparecia o Castanheira e dizia: "É pá, anda lá acima a minha casa". E, sem mais explicações, lá íamos nós de carro até à vivenda onde morava, ali entre Santana e a Cotovia. Lá chegados, punha a tocar um disco ou o seu magnífico gravador de bobinas, e era sempre uma maravilha: músicas excepcionais, em geral nunca desconhecidas, com uma qualidade de reprodução de que não dispunhamos em mais nenhum lado. E ali ficávamos a ouvir, sem grandes conversas, mergulhados naquela magia duma música miraculosa. De tudo o que ali descobri lembro-me especialmente do David Bowie, de quem nunca ouvira falar antes, e que também nunca passou muito na rádio em Portugal, nessa fase.

Os festivais de Jazz de Cascais constituíram outra das aventuras feitas a meias. O Castanheira era um amante de Jazz, música de que tinha igualmente muitas horas gravadas. Os primeiros Festivais de Jazz de Cascais eram maratonas de imensas horas, ao longo de vários dias, com músicos de renome mundial. Só com a ajuda do Castanheira foi possível absorver aquela quantidade de notas de uma música que me era algo estranha. Ainda há pouco tempo ele me levou à sua nova casa, uma grande vivenda no Caminho Branco, toda em piso térreo, concebida por ele ao mais ínfimo detalhe, e onde um estúdio de música tinha um lugar privilegiado.

Apresento as minhas sentidas condolências à família, particularmente à Fernanda e ao seu jovem filho. É uma grande perda; era um grande homem e um grande amigo, o Castanheira.

4 Comentários:

Às 30/6/06 , Blogger Atena disse...

Conheço o António há muitos anos. Era amigo do J. Não sabia dessa sua faceta de apreciador de música. Sabia que era uma pessoa especial, sempre com um sorriso. Daqui envio um grande abraço à esposa do António pela coragem que sempre teve ao longo da vida. Um beijinho ao António filho para que continue o nome do pai.
Bons sonhos!

 
Às 30/6/06 , Blogger António Cagica Rapaz disse...

Encontrávamo-nos, com frequência, no restaurante S. Jorge, na Aiana. Sempre atarefado, sempre a correr, dentro e fora do País, sempre decidido e sorridente.
Se não me engano, passou o último Natal no hospital Garcia de Orta. Esteve três dias numa maca, num corredor.
Encontrei-o lá, em pijama, esperando ter alta a todo o momento.
Saí impressionado, não particularmente com ele, pois estava optimista, mas com a angústia que é estar naquele (ou outro) hospital.
Meia hora depois, ele continuava lá, enquanto eu já estava na Galé, na esplanada, a petiscar, com o sol e o mar ali, saboreando a vida.
Daí me surgiu a ideia de uma crónica que faz parte do meu recente livro "Janela com Escritos".
Não é publicidade que faço, é apenas para sublinhar o simbolismo de um encontro e recordar a estranha sensação que tive.
Nunca esqueci a conversa que tivemos, mas nunca pensei que nos deixasse tão cedo.
Aqui fica a minha homenagem ao António.

 
Às 1/7/06 , Anonymous um amigo disse...

Aproveito a oportunidade neste blog para realçar que o António foi uma grande pessoa e um bom profissional ( conheci ambas as facetas ).

 
Às 22/12/14 , Blogger Antonio Barata disse...

Tive o privilégio de conhecer O António Castanheira em 1997, tinha eu na altura 17 anos numa obra que fizemos no Laranjeiro "Calviteira" Numas garagens cave e subcave e também numa Clínica na mesma obra. Consegui ver que estava diante de um homem com um inteléctuo muito acima da média, admirava-o como pessoa e como Profissional, tinha um conhecimento tremendo de electricidade e electrónica. Curiosamente procurei-o aqui no Google se conseguia ter alguma informação sobre ele e descobri este Blog que infelizmente dá a triste informação da morte dele. Quero enviar os meus sentimentos à família e claro, a minha homenagem ao António Castanheira.

 

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