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sábado, abril 15, 2006

Ritual injusto


Hoje é dia de "matar o Judas": uma tradição muito arreigada em Sesimbra, e que parece radicar na ideia de castigar o apóstolo que traíu Jesus e o denunciou aos Romanos.

No entanto, uma sombra paira sobre este ritual. A recente divulgação do denominado Evangelho segundo Judas, levanta a dúvida sobre se são justificadas as suspeitas ou se, pelo contrário, Judas Iscariotes terá sido, até ao fim, o mais fiel discípulo de Jesus.

Alguns explicam que quem quer que seja que tenha escrito este Evangelho, contou a história "à sua maneira", de modo a favorecer a corrente cristã conhecida como "Gnósticos". Mas, nesse caso, teremos igualmente de aceitar que os Evangelhos canónicos, aqueles que fazem parte da Bíblia, também foram "escritos à maneira" de alguém, e que a demonização de Judas teria tido como objectivo mostrar que os cristãos nada tinham a ver com os Judeus, que nessa altura não eram nada populares no Império Romano (tinham levado a cabo uma revolta contra Roma).

Como se sabe, Jesus e todos os seus discípulos eram judeus, e a mensagem religiosa de Jesus começou por ser uma variante do Judaismo - embora contivesse em si uma base filosófoca muito diferente daquela religião. O Cristianismo de hoje - nas suas várias correntes - é muito diferente dos Judaismo, mas essa diferença foi-se construindo ao longo dos séculos, nomeadamente com a escolha, de entre as várias dezenas de Evangelhos que existiram, dos quatro que passaram a integrar a Bíblia.

O Evangelho Segundo Judas, apesar de apresentar uma versão diferente da vida de Jesus, não vai modificar o Cristianismo. Mas deve-nos fazer meditar sobre se é justificado este ritual macabro de queimar um boneco representando uma pessoa, fazendo ecoar séculos de intolerância e violência das comunidades cristãs contra os Judeus.

Eu, este ano, não vou "queimar o Judas".

7 Comentários:

Às 15/4/06 , Anonymous Urban@ disse...

Estranho de um momento para o outro questionar-se o papel de Judas. E o Vaticano? Qual a sua opinião? Ou é favorável este novo evangelho ás pretensões deste novo Papa? E os evangelhos de Jesus Cristo e de Maria Madalena
? Esses é que não convêm mesmo aparecer... Seriam demasiado chocantes e...romanticos? Não é o amor a interminável busca feita pelo, seja qual for a sua religião? Não é a busca do amor que está na base de todos os evangelhos que compôem a Biblia? Porque não Jesus Cristo amar ... a uma esposa... a uma filha... aos homens e a seu Pai? Por mim e por muita gente, seria perfeitamente normal. O celibato não o faria mais inatingível,bem pelo contrário. É a sua semelhança com o mais vulgar dos Homens, que ama e sofre por amor, seja esse amor maternal, paternal, fraternal, marital, etc, que torna Jesus próximo dos homens e um exemplo a seguir. Acreditem na Ressurreição de Jesus, mas como Homem/Homem. Como homem com características terrenas... aproximem-no de Vós.

 
Às 15/4/06 , Blogger J.A. disse...

Não é nada estranho: coincide com a divulgação do Evangelho segundo Judas, a partir de uma versão copta. Se fossem conhecidos os originais das dezenas de Evangelhos que existiram, certamente que se ficaria a conhecer melhor a história da época em que Jesus Cristo viveu. Mas isso em nada alteraria as religiões cristãs.

 
Às 17/4/06 , Anonymous Anónimo disse...

Acha mesmo que não? Pense lá bem!

 
Às 17/4/06 , Blogger J.A. disse...

Estou convencido que não. Jesus Cristo lançou um conjunto de ideias simples e poderosas que, ao longo dos séculos, nos foram ajudando a conduzir a nossa vida pessoal e colectiva. A base disso são as ideias divulgadas por Jesus, e não os episódios históricos da sua vida pessoal.

Até mesmo nos Evangelhos canónicos se encontram contradições. Mas isso é importante? Claro que não.

Por exemplo: dizem alguns que talvez Jesus considerasse Judas como o apóstolo mais inteligente, que melhor percebia a sua mensagem, enquanto os outros se situavam muito longe desta compreensão. Também dizem que Jesus tinha uma especial preferência por conviver com mulheres, nomeadamente Maria Madalena. Caso isto se viesse a provar como verdade histórica, alteraria alguma coisa dos seus ensinamentos? Certamente que não.

Uma das coisas mais inteligentes que a Igreja Católica fez foi centrar-se na mensagem de Jesus e simplificar os detalhes de vida de Jesus, que tinham que ver com os usos e costumes daquele tempo.

Por exemplo: o Corão, que tem muitas semelhanças com a Bíblia, também está repleto de factos contingenciais, coisas típicas da época do profeta Maomé. Ora, em muitos circulos maometanos, continua-se a defender a manutenção de usos e costumes arcaicos tal como aparecem descritos no Livro, dificultando o funcionamento da própria sociedade.

Em suma: a mensagem de Cristo encontra-se extraordinariamente veiculada através de metáforas: uma forma poderosa de transmissão de ideias, apropriada a uma época onde dominava a oralidade, mas que ainda hoje mantem a sua força comunicativa. Essa mensagem foi sendo interpretada e aplicada ao longo dos séculos, a modos de vida que foram evoluindo. Nada disso poderia ser alterado ou abalado por pormenores históricos que contradigam aspectos secundários dos Evangelhos.

 
Às 17/4/06 , Anonymous Urban@ disse...

Concordo, plenamente. Bem visto, como sempre!

 
Às 17/4/06 , Blogger António Cagica Rapaz disse...

Se um dia houver certezas absolutas e verdades indesmentíveis, é o fim das Religiões.
A essência de tudo é a Fé, a crença no improvável, o gesto (quase) desinteressado.
Se Deus quisesse provar que existe, não Lhe seria difícil. Mas ... e depois? Acabaria o livre arbítrio, cada gesto dos homens passaria a ter um objectivo, um interesse, um fito.

Haverá sempre lugar para a dúvida. É ela o cimento da Religião.

É apenas uma opinião, um simples palpite instintivo...

Quanto à queima do Judas, é absurdo, anacrónico, retrógrado e lastimável. 3º Mundo atrasado...

 
Às 19/4/06 , Anonymous Anónimo disse...

A foto da queima do judas no átrio da igrja com toda aquela gente á volta é, nos dias de hoje inacreditável. Até parece que estamos na palestina ou no iraque.

 

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