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terça-feira, abril 25, 2006

A História não pára


Tenho estado a ver o filme "Capitães de Abril", da Maria de Medeiros, sobre a Revolução do Cravos. É uma reconstituição bastante fiel, quer dos factos, quer do ambiente social imediatamente anterior e posterior ao golpe militar. É um filme que já tinha visto umas duas ou três vezes e que me comove sempre. Admiro especialmente a reconstituição do tom pessimista que dominava o dia-a-dia das pessoas, mesmo daquelas que conspiravam contra o anterior regime: lutava-se com coragem, mas sem expectativa de que a situação mudasse em breve.

Nessa época eu morava numa residência de estudantes, em Lisboa. Mas quando se deu a revolução encontrava-me em Sesimbra, pois a faculdade de economia (ISE) tinha fechado na sequência de grandes protestos dos estudantes. A razão imediata destes protestos tinha sido a prisão, pela PIDE, de um grupo de alunos, do qual eu fazia parte, que tinham ido a Vieira de Leiria em solidariedade com os operários em greve na fábrica de limas Tomé Feteira. Depois de um mês em Caxias, regressei a Sesimbra, onde a vida decorria pacatamente. O hóquei em patins era a grande animação dessa época, com os jogos a decorrer na sala de baixo do Ginásio, cuja construção ainda ia a meio.

Eu não sabia se a minha escola voltaria a abrir. Mas tinha a certeza de que não poderia continuar os estudos, pois o adiamento da incorporação militar seria certamente recusado ainda nesse ano, por causa da prisão. A revolução acabou por proporcionar grandes modificações nessas sombrias perspectivas: a universidade voltou a abrir, a guerra terminou, e teve então início um dos mais extraordinários períodos da vida política, económica e social em Portugal.

O país mudou muito desde então, e mudou para muito melhor. Só pode dizer mal do caminho percorrido quem não se lembra – ou não se quer lembrar - do que era a vida portuguesa no início dos anos 70. É evidente que os outros países também não ficaram parados à nossa espera. É por isso que é ridículo avaliar o sucesso ou insucesso do nosso país por comparações estatísticas que nos vão colocando atrás ou à frente dos outros.

O curso da História não pára. Portugal acabaria por mudar, mesmo que não tivesse havido revolução naquela altura - talvez à maneira do que aconteceu em Espanha, ou talvez de modo ainda mais dramático. A revolução e o caminho percorrido, com a sua dose de romantismo e sonho, com a sua dose de maniqueísmo e desenrascanso, e também com a sua dose de enganos e desilusões, constituem uma página notável da nossa vida colectiva. O meu desejo é que todos nós, protagonistas desta caminhada, nos possamos sentir orgulhosos pelo caminho percorrido.

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