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quarta-feira, dezembro 28, 2005

Trapo Azul

O escritor Romeu Correia, natural de Cacilhas, casou, em 1942, com Almerinda Correia, de Sesimbra, onde nasceu a 9 de Março de 1920, e que se destacou como desportista. Na década de 40 o casal cria no Almada Atlético Clube um núcleo de raparigas praticantes de atletismo, o que provocou algum escândalo, pois não era hábito ver-se raparigas a praticar desporto, vestindo camisolas de manga curta e calções de meia perna. Almerinda recebeu a Medalha de Ouro da Cidade de Almada, por mérito desportivo. Destacou-se no lançamento de peso, disco e dardo, modalidades em que foi por várias vezes campeã nacional, mas brilhou igualmente noutras modalidades, tais como corridas e saltos. O seu nome foi atribuido a um prémio anual que distingue os melhores Atletas do Almada Atlético Clube: "Medalha Almerinda Correia", e após a sua morte, a Câmara Municipal deu o seu nome a uma rua do Concelho de Almada.

O primeiro romance de Romeu Correia, "Trapo Azul", publicado em 1948, retrata a vida de uma família de Sesimbra, que mais tarde se desloca para Almada. A personagem principal é Laurinda, filha de um guarda-fiscal, que se torna costureira na vila à beira Tejo. O "trapo azul" era a ganga de que se faziam os "fatos-macaco" para os operários e outras profissões.

A primeira edição deste romance foi feita a custas do próprio autor, mas o sucesso propiciou uma segunda edição em 1953, pela Guimarães Editores, tendo Romeu Correia aproveitado para fazer algumas modificações no texto.

Foi talvez através da sua mulher, Almerinda Correia, que o escritor se interessou pela vila piscatória, ao ponto de ter dedicado a Sesimbra uma boa parte do romance "Trapo Azul", do qual transcrevemos o seguinte trecho, onde Laurinda fala sobre o mar e os pescadores de Sesimbra:

   O mar...
   De colo, já o ouvira bramir, a açoitar as rochas e a muralha da Fortaleza. E as vagas lambiam a areia, deixando, no regresso, castelinhos de espuma. As mulheres da vila sabiam-no leviano e temiam-no como a boi tresmalhado. Ao menor receio, afluíam à praia, desaustinadas, de mãos enclavinhadas, a dobar orações...
    - Deus nos ampare! Ele tá mau, vizinha Alice! Hoje, rebenta grande desgraça!
    Minha mãe, nascida e criada entre peixe e lágrimas, compartilhava da inquietação. E até nas casas burguesas, sem a vida dos seus a perigar na voragem das ondas, acendiam velas e lamparinas, lembrando clemência à Virgem.
    Duma vez, um barco naufragara já a curta distância da vila. Impotentes, o horror estampado nos rostos, as famílias dos tripulantes gritavam pelos entes queridos - pontos aflitivos, teimosos de vida, a encimar as cristas das ondas. A rebentação quebrara-lhes os remos, o casco do barco furara-se na queda de uma vaga - e daí à submersão fora o tartamudear de uma reza. Só um milagre do Senhor podia amparar os náufragos. E não tardou um clamor de mil bocas:
    - Vão buscar o santinho à igreja!
    - Não demorem, ó gente! Corram! Corram à igreja!
    Num assomo de fé, uma avalanche humana escancarou as portas do templo, e em breve o Senhor das Chagas desceu à praia, ali à nossa beira.
    Joelhos na areia, braços erguidos ao andor, dedos cruzados nas mãos unidas, o sal das lágrimas babava as bocas, gementes:
    - Tem piedade de nós, Filho de Maria! Piedade! Salva-os, plas tuas Cinco Chagas!
    O céu era todo uma negridão de nuvens. Vento inclemente, irado, fustigava os cabelos, o mísero corpo do Senhor... Caiu a noite e, com ela, as nossas esperanças, mas ainda todos pediam, esperavam. Vieram archotes para a praia, de chamas sanguíneas, sinistras, quando uma vaga arremessou um cadáver à areia; depois outro, e outro, e outro...
    E, nessa noite, o Senhor das Chagas ficou mais junto do meu coração: de tão humilde, tão pobrezinho, nada pudera contra a fúria do mar!
   Nos dias seguintes, lá vi os homens na faina da pesca - perdoar era a palavra que o pessoal das companhas decorava desde meninos. O mar, que desobedecera ao Senhor, tisnando de luto mulheres e crianças, tinha também o privilégio de alegrar a praia com pescarias avultadas. E, quando alguém, enfurecido, lhe praguejava rancores, logo inquietava ouvidos próximos:
    - Cala-te, alma do diabo! Ele pode castigar! É ele quem dá o pãozinho à gente!...
    Bem cedo compreendi que estava escrito no mar o destino dos habitantes da vila! Dolorosas tardes, quando as armações aportavam vazias e um peso de fome curvava os homens e as companheiras! Corria, então, como que um jeito de desprezo pelas artes, que, agoiradas, nada tinham podido arrancar às entranhas do avarento. E o peixe miúdo, lixo das redes, petinga rejeitada por vagabundo, lá apodrecia, esquecido na areia - despojo inútil de canseiras perdidas.
    Com a chegada do estio vêm também os banhistas, trajando à fresca, molengões, ciosos de banhas perdidas no sedentarismo citadino. Enchem pensões, alugam quartos e partes de casa a particulares. A vila, então, desempenha-se e repousa de martírios. E, nas águas serenas, mar chão, coalhado de maillots multicores, poucos reconhecem a besta traiçoeira, assassina - arrependida talvez das grandes faltas cometidas.
    Sim, no mar está escrito o destino das raparigas da vila!...
    Casar com pescador é amarrar corda ao pescoço, é viver eternamente com a borda debaixo de água. E bem poucas têm o condão de fugir a tal sina... Conseguir noivo no Comércio, nos Serviços Públicos ou nas casas de teres - é meter lança em África. Sobram os pescadores...

Romeu Correia
"Trapo Azul" (1948)

4 Comentários:

Às 29/12/05 , Anonymous Anónimo disse...

Gostava de saber de quem é a capa a bonita capa desse livro de Romeu Correia.

 
Às 29/12/05 , Blogger J.A. disse...

No livro não é feita referência à autoria da capa. A única pista será a assinatura no canto inferior esquerdo.

 
Às 3/7/06 , Blogger Luis Villas disse...

Olá Viva.
mais uma vez parabens por este excelente Blog.
Gostaria de solicitar autorização para colocar o Post TRAPO AZUL no meu Blog Pontal de cacilhas.
www.pontaldecacilhas.blogspot.com.
Abraço.

 
Às 3/7/06 , Blogger J.A. disse...

Obrigado pelo comentário. Pode publicar à vontade.

 

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