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sábado, novembro 26, 2005

Arte xávega na Costa da Caparica

         De novo o Deus te guie fez proa ao mar, e o calador foi folgando cabos e pondo coiros a flutuar de oito em oito cordas. O arrais pediu fósforos, chegou o lume ao morrão do caldeiro e fez sinal para terra. Deu o brado de «ninguém reme!» e apagou a chama.
         Houve um silêncio no Deus te guie... E o espadilheiro bateu com a pá na água.
         — Abriu! Abriu peixe! — chamaram os remos, batendo cada um, depois, com gana.
         Mas os arrais berrou:
         — Ninguém bate! Aqui,quem dá ordes!?
         Fez-se tamanho silêncio que só o marulho das águas tem rumor. A bica da vante está voltada ao sul. As mãos do calador atam a corda à rede.Vão descer as primeiras malhas... Todos se descobrem. E o arrais diz:
         — Vai em louvor de Nossa Senhora do Cabo!
         Braça a braça, as pandas da rede tocam na água e todo o tecido é luz, é prata, fosforecendo em todos os quadradilhos e rasgões. Cortiças sobre cortiças caiem das mãos do calador; chumbos sobre chumbos, das do vareiro, que fez novo trajecto da vante à ré. Num ritmo calmo, compassado, os remos são puxados com brandura. Tem garbo, tem galhardia, assim, o meia-lua, a singrar para o sul! Chega a vez de o saco, de malhas fechadas e escuras, ser arrumado pela borda fora... E é que é mesmo - mas pela borda contrária. A espadilha flecte agora numa manobra: o cerco acentua-se. Rema-se na sóta um pouco mais. A proa do Deus te guie já está feita a terra. Manel da Palmira desembaraça-se da segunda manga do derradeiro braço... Agora, folga a panda barca!
         — Eh, gente! - grita o arrais - vamos arrincar!
         — Força!... Força!... — E o espadilheiro esgalga o tronco, incitando a malta dos remos:- Upa! Upa! Força!... Ai qu'é peixe!...
         Na praia, a parte da companha que pertence a terra mete-se à água, arregaçada. O da chama de petróleo ergue o braço, e põe um clarão sinistro no rosto dos que o rodeiam. Há uma algaraviada de palpites e ralhos. Cabazeiros e almocreves, transportando recoveiras, canastras e sarricos, esperam o meia-lua. Três catraios, endemoinhados, brincalhões, salpicam o pessoal nas correrias. Barafusta-se. Sobem ameaços. Mas o jogo continua...
         O Deus te guie vence a rebentação e aporta de ré. O grosso dos homens bota pés à cinta e pula para o areal. Toda a companha se divide em dois grupos: o da banda panda e o da panda barca. Situam-se a uma distância como duzentos metros. Os fedelhos voltam os xalavares e os homens escolhem o seu cinto para para o puxa-puxa. O arrais percorre os dois alares, a saber distâncias. E berra:
         — Ala a panda barca!
         O pessoal do sul, firmes os cintos, e, de peito ao mar, recostado na tala de lona, recua, recua...
         Três aselhas e seis nós, cicatrizados na corda, chegam ao mar. Uma voz avisa o arrais:
         — Á mestre, caçámos trinta e seis cordas!
         Trinta e seis cordas, na panda barca, significa que foi atingido o par com o lado norte, vindo a rede, agora direitinha para terra.
         — Ala da banda panda!
         E os homens, às arrecuas, passinho sobre passinho, calcanhares firmados, troncos recostados, puxam as sirgas. Cada um, ao dar por findo o seu reboque, liberta a roldana e volta ao princípio. Vai caindo corda morta no areal, de ambos os lados. Mas, tanto na panda barca como na banda panda, está um catraio a dar-lhe a arrumação devida. Zé Agulha ganha três quartos de parte, e é tão cauteloso naquele enrolar em óculo que, braço enfiado pelo meio, logo a transportaria, inteirinha, sem risco de enlear-se.
         Um coiro, túmido e acastanhado, surge a lume de água, escorrendo limos:oito cordas vencidas ou sejam cento e quarenta e quatro braças. Pés fincados na areia resvaladiça, braços cruzados sobre a arca do peito, os homens forcejam, mas a sirga cede tão lentamente como se arrastasse os infernos. O suor já camarinha pelas carnes. As bocas, cerrando-se a cantigas, só de tempos a tempos praguejam - e gemem, gemem, de arreganhos.
         No céu há uma nova claridade: começa a aparecer a lua na crista da rocha. A manhã esfria - cada vez mais fria... E enregela a cara e as mãos dos homens. De tão esticada, a sirga parece cabo de aço, vindo continuamente babujada de sargaço e mexoalho.
         — Atrasar dessa panda! — berra o arrais para os do norte.
         Os pés amortecem de ligeireza, mãos nas talas, caras postas na névoa, que branqueia agora o céu. As sirgas vão-se aproximando, cada vez mais, cada vez mais. Zé Agulha e o camarada da outra panda pararam de enrolar. Novo berro do que manda:
         — Eh, gente! É puxar!... puxar!...
         As duas filas de pés são tomadas de ganas. Pressente-se a sirga a ser ganfada aos sacões, e os corpos bamboleiam-se todos, de vergados, às arrecuas, aos solavancos. Gemem-se cadências, roncos de quem tem falta de vigor.
         — Puxa!... Agora!... Lá vem!... Vem!...
         Velhos ressequidos, malteses, rapagões, catraios - são todos comparsas daquela tracção medonha, infindável. A claridade da lua torna os fogachos de petróleo mais sangrentos. Lamúria de fado, que logo se engasga, guinchos supersticiosos - saiem da turbamulta estafada e ansiosa. Mais umas braças, e as primeiras malhas surgem à flor da água. Os pés tomaram há pedaço dois caminhos: para trás e para o lado. Agora, mais para o lado do que para trás! Trinta, quarenta metros - as pandas não estão a maior distância. Há gente que vai pela água dentro e vem de lá a puxar. A voz do arrais é abafada:
         — Puxa!... Agora!... ai qu'é peixe!...
         Surgem os braços da arte e a grita redobra. Num atropelo, a malta precipita-se para a rebentação, encharcando-se. E o alar passa a ser à mão, com gana, peitos para a frente, entestando o chão.
         — À finca!... À finca!...
         Com a água pela cintura, pouco se caminha: é puxar com as mãos ambas, puxar, puxar...
         — Eh gente!... À finca! À finca!...
        Vem uma onda e encharca os pescadores. Os dedos ganfam as malhas num frenesim, num delírio.
         — Agora!... Agora!... À finca!...
         Mais uns arrancos, e o saco, de goela escancarada, veio de rojo para seco, numa barafunda de grita e encontrões. O interesse de muitos olhos debruça-se sobre o trambolho escuro e vasquejante. O arrais meteu mão às malhas, sacudiu água e lixo, mas retirou o semblante contristado.
         — Carapau reles... Nã dá quatro cabazes...
         — Nã dá quatro cabazes... — repetiam os homens, cabisbaixos, sacudindo o encharcado dos andrajos.
         De recoveira e canastras ao ombro, os almocreves tocaram pés no pescado, caçoando:
         — Á abílio, quanto queres por isso? Trinta malréis tá bem pago!...
         O arrais não deu resposta: gambiou pelo areal a dar novas ordens. — Era recolher, de novo, a bordo, as cordas, os coiros e a rede, pois, mal a lota findasse, iriam tentar novo lance ao ver de dia.
         Um descontentamento minava os homens, já de ralé perdida para novas andanças.
         Vultos sumiam-se, à socapa, para as dunas...

In Calamento, de Romeu Correia (1950)



As seguintes fotografias da arte xávega, tiradas na Costa da Caparica em 2004, podem ser vistas no blogue "Uma por rolo":
| puxando a sirga | escolhendo o peixe | enrolando a corda | escolhendo o peixe | escolhendo o peixe | saco | colocando o peixe em caixas |

O fotógrafo Francisco Castelo também tem uma série de imagens sobre da xávega na Meia Praia (Lagos), que podem ser vistas aqui.

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