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domingo, setembro 10, 2006


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Ponta da Passagem - foto de Darkblue.

2 Comentários:

Às 11/9/06 , Blogger Sailor Girl disse...

Para o caso de não ter lido...

«A casa encantada», por JOÃO BÉNARD DA COSTA, in «Público» de 10/09/2006.

«1. A Serra da Arrábida é, desde 1976, um Parque Natural, ou seja, nos próprios termos do decreto que o criou, "área devidamente ordenada, tendo em vista o recreio, a conservação da natureza, a protecção da paisagem". Parques naturais há-os às centenas ou aos milhares por este mundo cada vez menos de Cristo, e qualquer semelhança deles com a Arrábida é mera coincidência. Nalguns, nem se pode circular de automóvel, mas os passeios a pé, de bicicleta ou de caleche estão bem organizados por excelentes caminhos, conforme a vontade de andar de quem se mete neles. Há uma vigilância discreta e eficaz, para que os visitantes sintam sobretudo paz e se sintam em paz. Paz e beleza, nada mau como programa para quem gosta do género.Em Portugal, há vários "parques naturais" desses, definidos por decreto. Não estudei o suficiente para saber quantos são nem por que ordem foram criados. Sem querer provocar ninguém, há o Parque Natural Peneda-Gerês e sabe-se o que por lá se passa. Há ou havia?
Há o Parque Natural de Sintra (vivo entre dois parques naturais, o que está longe de ser a sorte que um finlandês ou um islandês imaginariam) e não me chegavam as páginas deste jornal se me quisesse ocupar dele. Mas, por muito que eu goste de Sintra - e tanto gosto que cá vivo há quarenta e oito anos - não nasci em Sintra como "nasci" na Arrábida. E por muito mal que se diga - não vos doam as mãos! - Sintra, comparada à Arrábida, é o "glorious Eden" que Lord Byron em tempos cantou.
Quem me seguiu nas semanas precedentes (PÚBLICO, 27 de Agosto e 3 de Setembro) pense no que leu (se é que não conhece já, de vista ou de experiência) e compare, imaginariamente, com a ideia de Parque Natural que acima se resumiu e a lei consagra há trinta anos.
"Área devidamente ordenada" pode ser a da região situada entre uma cimenteira e uma pedreira, em breve entre lixos tóxicos e o desmoronamento de algumas das nossas mais belas falésias? "Área devidamente ordenada" pode ser a lixeira que se estende entre um parque de estacionamento e caminhos onde famílias de domingueiros quotidianos assam sardinhas e devoram melancias, deitando para o chão espinhas, caroços, cascas, latas de conserva, restos de comida e outras coisas piores que garantem segurança ao sexo? "Área devidamente ordenada" pode ser a da apertada via única, onde estacionam e se engarrafam diariamente, nos meses de Verão, centenas de veículos, em bichas de 4km?
A "conservação da natureza", para além do que decorre do parágrafo anterior, documenta-se pelos incêndios de 1945 (Monte Abraão e a parte da serra que domina o Convento), 1958 (do Alto do Formosinho à Cabeça Gorda, quase chegando a El Carmen), 1973 (encosta voltada ao mar, a nascente), 1987, 1991 que levou 196 hectares de uma área confinante com a do incêndio de 58, ou 2004, o mais recente, na encosta sobre o Portinho. Mas Ana Lídia Franco, num livro assaz instrutivo, por boas e más razões, com que o Parque se comemorou a si próprio em 1996, intitulado A memória de Uma Serra Martirizada, enumera vinte e um incêndios florestais nos vinte anos de existência do Parque, culminando nos de 87 e 91.
"Serra martirizada"? No mesmo livro, um senhor que diz ter sido antigo comandante dos sapadores de Setúbal, diz que a dimensão do incêndio de 91 "não justificou a repercussão mediática e a polémica que se criou em seu torno". Para ele, tratou-se "de aproveitamento político", já que o ano era eleitoral e, "passados cinco anos, a Serra volta a estar de uma beleza deslumbrante, passando despercebidos, ao comum do passeante, os vestígios do incêndio florestal mais "badalado" que já houve em Portugal". Por pouco não se repete um velho lugar-comum: incêndios periódicos fazem bem à floresta que, como as bocas beijadas, precisam deles para se renovar...Pois é. Mas quem sabe do assunto tem falado da destruição brutal de um ecossistema único. Mesmo a quem não sabe, como eu, "não passa despercebido" que a vegetação das zonas ardidas, se voltou a crescer, cresceu de modo muito diferente. Os pinheiros proliferam, os ciprestes também: mas que é feito do zimbro, ou mesmo das alfarrobeiras? A Mata Coberta tem-se salvo, a Mata do Solitário e a Mata do Vidal assim-assim, mas, de resto, entre o que eu me lembro da infância e aqui contei para vocês e o que agora se vê, falem-me em conservação e eu repito o "Oh da Guarda!" de Sebastião da Gama, em 1947, quando tudo me parecia tão bom. "Protecção da paisagem"? Quem sabe ainda o que é a paisagem da Arrábida? Sabe-se o que fizeram às ermidas do Convento Velho, nos anos revolucionários, quando de lá arrancaram todos os azulejos (e belíssimos eram). Sabe-se o que aconteceu, há meia dúzia de anos, quando um intruso (talvez piedoso) pintou a robialac, para lhe dar mais bom aspecto, o belo Cristo crucificado, de traça italiana, que D. João V ofereceu aos frades e que resistiu na dita capela do Senhor dos Aflitos, apenas porque não cabia pela porta. Na sequência, a Fundação do Oriente murou o Convento Velho, que já tinha sido murado quando fora dos Palmellas, nos meus anos de juventude. A Fundação também salvou o Convento Novo, mas o que não é dela quem o salvou, quem o protegeu?
2. Contei, quando contei histórias do tempo da Maria Cachucha e de quem com ela dormia, dos tantos meus passeios na serra. Eram caminhos abertos pelos frades e conservados pelos pastores quando apascentavam seus rebanhos de cabras. As cabras foram proibidas (parece que roíam muito), frades é coisa que lá não existe há 170 anos, os turistas vão a banhos e não à serra. Assim, quem procurar os caminhos ou atalhos que eu com tanto pormenor vos descrevi no primeiro domingo de Setembro, reagirá como quem for à procura das quatro praias de Alportuche da minha crónica de Agosto. Mentirão e aldraboso, como dizia a Roberta quando era criança, ou inventor de caminhos de nenhures. Eu ainda sei - mas se não sou o ultimo, sou dos últimos - por onde passam quase todos eles e ainda sei que só sabendo-o se pode dar alguns passos seguidos numa serra que proíbe o corta-mato. Era tão fácil ainda recuperá-los. Peçam ajuda aos escuteiros que às vezes por lá se aventuram e marcam com lacinhos as encruzilhadas onde a perdição é mais fácil. Ou peçam-me ajuda a mim, se não forem muito orgulhosos. Com esses atalhos recuperados, opunha-se uma forte barreira à progressão dos fogos e permitiam-se belos passeios na mais bela das serras. A única coisa que o Parque fez foi proibir acessos, proibição que de pouco vale porque, graças a Deus, pouco o controlam. Se, em vez dos caça-multas habituais, lá estivessem vigilantes para assegurar bons passeios, dava-se a Serra e salvava-se a Serra. Assim, é só esperar por mais uns fogos e depois chorar na cama que é parte quente, como dizia a minha Avó que Deus tem. Se até o largo caminho, quase uma estrada, que outrora levava da propriamente dita ao Convento, e que nós, miúdos, descíamos a correr, pé numa pedra pé noutra, porque quem não pensa não cai, se até esse, hoje é difícil de dar com ele... Meu Deus, eu que ainda me lembro do velho Senhor João, das barbas, sogro do César de quem tanto tenho falado ou do Senhor António que lhe sucedeu como guarda do convento - ambos fiéis servidores do Senhor Duque - subirem esse caminho de mula, como se fossem terras e tempos do Senhor Reitor.
3. A Serra fez-se para passear e para gozar. Não para estar fechada com placas de proibição nem para ser vandalizada por uns clandestinos que lá vão buscar madeira fácil.Agora, vai por aí grande algazarra contra um recentíssimo Plano de Ordenamento, já pomposamente chamado POPNA, que começou, muito salutarmente, por tentar pôr cobro à turba-multa de motos de água e skiadores, que se vinham exibir para as praias por tudo quanto era mar, e acabou no mais estrito fundamentalismo, a proteger desovas de polvos e a atirar com toda a navegação para 450 metros da costa. Vale para este caso o que disse para a serra. O Deus que nos deu um mar como o da Arrábida, praias como as da Arrábida e peixes como os da Arrábida, não foi certamente para único gáudio desses peixes (gáudio relativo, já que têm o mau hábito de se comerem uns aos outros), mas para acrescentar mais uma maravilha na oferenda ao ser supremo da criação que parecemos ser nós.
Sempre sonhei com a descrição pelo cronista da Arrábida Frei António da Piedade (1675-1731), da transladação do cadáver de Frei Agostinho da Cruz, de Setúbal onde morreu, para Alportuche, onde o desembarcaram e o levaram serra acima, até ao Convento onde está sepultado. Foi "em uma tarde milagrosa" e o poeta vinha numa "fusta recoberta de tapetes e toldada de ramos e de flores", em "grande barca", rodeado por dezenas de velas desfraldadas, no mais fabuloso cortejo fúnebre que imaginar consigo. Não é preciso ir tão longe. Leia-se a descrição de Raul Proença de uma viagem de barco de Setúbal a Sesimbra, sobretudo depois de passada a Lapa dos Pombos e antes de se chegar à Lapa dos Morcegos. Ninguém tem o direito de roubar isso a ninguém, como ninguém tem o direito de estragar isso a alguém.
Devolvam-se às praias da Arrábida as areias que ano a ano lhes levam para o largo e devolvam-se ao mar da Arrábida o prazer da navegação costeira e o prazer da pesca do melhor peixe do litoral português. Como defendi para a Serra, vigie-se, para evitar vândalos, a transformação da Arrábida em marina de luxo para exibicionistas náuticos ou em ancoradouro de frotas turísticas daquelas de arrasar tudo, com altifalantes a bordo e música aos berros. Mas não se use a proibição como solução mais fácil, com muitos proveitos em multas, quer sobre pescadores de Sesimbra quer sobre aqueles que, como o meu neto Nuno, aprendem o que é o real, pescando camarões sob as rochas nas incomparáveis marés vazias de Alportuche.
Querem dinheiro à viva força, já que se diz que o Estado cria Parques mas não os sustenta e que não há dinheiro nem sequer para a Directora visitar o Parque que dirige? (Diz-se, se calhar como se diz tanta coisa, só para dizer mal do Estado ou dos directores). Há uma sugestão evidente e que não sou eu o primeiro nem serei eu o último a fazer. Se um Parque é como um Museu, porque não se cobram acessos como se cobram em qualquer Museu? Quem lá vai para não pagar a viagem a Tróia, arrepiava caminho e poupava-se o dantesco espectáculo de turismo massificado que hoje está a dar cabo do que resta da Serra.
Porque - correcções ou incorrecções políticas à parte, goste-se ou não se goste - a Arrábida nunca teve, não tem e não terá dimensão para um turismo de massa. A Arrábida é varanda de frades.Lembrem-se. Sem memória nada terá futuro algum.»

 
Às 11/9/06 , Blogger J.A. disse...

Li - e concordo plenamente.

 

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